Uma reflexão sobre o 9 de julho

Felipe Almeida

É feriado no Estado de São Paulo em memória da Revolução Constitucionalista de 1932. O conflito nasceu de uma disputa entre elites pelo poder. As oligarquias paulistas, destituídas pela Revolução de 1930, ansiavam por retomar a hegemonia política do país.
Se militarmente São Paulo foi derrotado, na narrativa o Estado venceu. Além de tensionar os rumos do governo central, a elite paulista garantiu que esse episódio moldasse o imaginário de todos os que escolhem viver aqui. Obelisco, MMDC, as avenidas 23 de Maio e 9 de Julho, o edifício e a campanha “Ouro para o bem de São Paulo”, dentre outros.

Contudo, a era de ouro do café havia chegado ao fim. Sem ele, como o estado sustentaria sua influência econômica e política? A resposta veio no lema: Vencerás pela ciência. E venceu. A maior instituição de ensino e pesquisa da América Latina nasceu justamente da reflexão sobre o que fazer após a derrota. Uma universidade idealizada pelas elites e para as elites, que importou o que havia de mais avançado no mundo. O conhecimento ali produzido potencializou a riqueza e a centralidade da principal Unidade Federativa do Brasil.

Mas onde fica o povo nessa história? Além de servir como bucha de canhão para a guerra, a classe trabalhadora foi marginalizada. Mesmo atraindo milhões de migrantes que, ano após ano, chegavam em busca de um lugar ao sol, o estado manteve o mais pobre em sua condição. O ingresso na USP era uma rara exceção, que só começou a se tornar mais acessível (ainda que de forma limitada) após pressões e diretrizes do tão criticado “governo central”.

Se em 1932 a guerra paulista era contra o Distrito Federal no Rio de Janeiro, nos anos 2010 a resistência foi contra as políticas inclusivas de Brasília — com a diferença de que, desta vez, tratava-se de um governo democraticamente eleito pelo povo e que decidiu pelas Cotas. Não por acaso, a USP foi uma das últimas universidades públicas do país a adotar o sistema de cotas.
Há uma contradição profunda em um estado que idolatra uma disputa de poder que jamais priorizou a classe trabalhadora, a qual até hoje sofre para sobreviver em paz.

Para que essa realidade mude, o povo que de fato sustenta este estado suando sangue precisa ocupar o local onde foi decidida a guerra. É necessário travar uma nova guerra: em defesa de quem busca sobrevivência diária, visando o fim das desigualdades.

É hora de entrar no Palácio dos Bandeirantes pela porta da frente, com a altivez de quem constrói a riqueza real, subvertendo a lógica daqueles que ainda mantêm de pé esse monumento em homenagem aos que destruíram as vidas de quem cuidava deste país.

Felipe Almeida é cientista social pela USP e membro do Núcleo Caravana

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